Marcos Frankenthal z”l
Memória, lucidez e responsabilidade pública (1948)
Esta página integra a AVIVA18 como registro de memória e de valores. Marcos Frankenthal z”l, foi um dos grandes organizadores do sionismo brasileiro no século XX — no sentido histórico de construir instituições, mobilizar solidariedade e transformar comunidade em responsabilidade prática. Aqui, preservamos um testemunho de 1948 e contextualizamos sua atuação para que a memória não seja apenas lembrança: seja fundamento.
Na manhã seguinte à independência do Estado de Israel, quando a guerra começou imediatamente, Marcos Frankenthal z”l registrou — com sobriedade e senso de dever — o que aquele instante exigia da comunidade: menos festa, mais responsabilidade.
“Não haverá nenhuma festividade. Estamos em guerra. Guerra de defesa imposta por forças hostis… a quem o petróleo é mais caro que um governo e uma pátria judaica. Reuniremos hoje nas sinagogas, segundo a velha tradição, como nos momentos angustiosos. Ainda não há lugar para a alegria. O sangue judeu está sendo derramado.”
— Marcos Frankenthal, 15 de maio de 1948
Nota editorial: Trecho citado com supressões (…). O texto integral encontra-se preservado em arquivos históricos e registros de época. A linguagem reflete o contexto do período e é reproduzida para fins de registro histórico.
O contexto daquele dia
Em 1948, a independência não inaugurou descanso — inaugurou urgência. A fala de Marcos Frankenthal nasce do choque entre um sonho realizado e a ameaça imediata: um Estado recém-proclamado tentando sobreviver ao seu primeiro teste.
A referência aos interesses econômicos (“o petróleo”) revela uma leitura realista do mundo: princípios nem sempre comandam decisões; muitas vezes, comandam conveniências.
E o chamado às sinagogas não é apenas religioso. É comunitário: reunir, orientar, sustentar, amparar — transformar emoção em estrutura.
Quem foi Marcos Frankenthal e porque ele foi decisivo
Marcos Frankenthal z”l foi um dos grandes organizadores do sionismo brasileiro no século XX — entendendo “sionismo”, em seu sentido histórico, como o movimento de autodeterminação nacional judaica que culminou na fundação do Estado de Israel.
Mas o ponto mais importante é este: ele não foi um “simpatizante”. Foi engenheiro de comunidade. Um homem que pegava ideias e transformava em instituição; pegava esperança e transformava em campanha; pegava medo e transformava em rede de apoio.
Radicado em São Paulo, à frente da Organização Sionista Unificada (OSU), ele atuou como articulador público e mobilizador comunitário — com método, disciplina e uma visão rara: a de que uma causa só existe de verdade quando vira trabalho organizado.
O que ele fez na prática (e por que isso importou)
Quando a história apertou, ele ajudou a comunidade judaica brasileira a sair do modo “espectador” e entrar no modo “responsável”. Isso se materializou em frentes muito concretas:
1)Transformou solidariedade em logística
Não basta “sentir”. Era preciso entregar. Ele liderou campanhas estruturadas de arrecadação e coordenação de ajuda material — com foco em necessidades vitais, urgentes e verificáveis: suprimentos, assistência, apoio à infraestrutura emergencial e suporte a deslocamentos e acolhimento.
O mérito não foi “pedir doação”. O mérito foi organizar confiança: quando as pessoas confiam, doam; quando confiam, participam; quando confiam, sustentam.
2)Organizou voluntariado com responsabilidade
Voluntários existem em todo lugar; o que falta é estrutura. Ele coordenou apoio comunitário e logística para jovens judeus brasileiros que se voluntariaram, integrando iniciativas como o Machal, com atuação em frentes diversas — inclusive medicina e logística.
Numa época sem internet, sem “grupo de WhatsApp”, sem atalhos, isso exigia liderança real: seleção, orientação, apoio às famílias, contatos, sustentação moral.
3) Informação, imprensa e responsabilidade pública
Ele entendeu cedo que guerra também se trava no campo da informação. Atuou pela coesão comunitária e pela sustentação do apoio público e diplomático brasileiro em cenário internacional sensível — num contexto em que figuras como Oswaldo Aranha se tornaram referência histórica do papel do Brasil na arena internacional.
Aqui há um valor que interessa ao doador hoje: responsabilidade pública. Não é barulho; é consequência.
4) Converteu instituições em rede de proteção
As sinagogas, sem perder sua dimensão espiritual, também operaram como centros de reunião, informação, acolhimento e suporte. Isso é o que comunidades maduras fazem em crise: abrem portas, organizam cuidado, amparam famílias, criam rumo.
Tradição, aqui, não é nostalgia. É tecnologia social: um jeito antigo — e eficaz — de manter gente de pé.
Relevância para a história institucional da comunidade judaica no Brasil
Embora sua liderança esteja fortemente associada à OSU, sua atuação integra o processo de consolidação comunitária no pós-1948, conectado ao fortalecimento de representatividade e coordenação nacional — em diálogo com a história da CONIB como voz institucional em etapas posteriores.
O convite para o consulado e a escolha pela independência
Marcos Frankenthal foi convidado a ser o primeiro cônsul de Israel no Brasil. Recusou.
A recusa não foi recuo — foi estratégia. Ele escolheu permanecer onde acreditava ser mais útil: na linha de frente comunitária, com autonomia para mobilizar, organizar e agir sem amarras protocolares. Há gente que serve melhor com cargo. Há gente que serve melhor com liberdade. Ele era do segundo tipo — o mais raro.
Por que esse legado importa para a AVIVA18
Lilia Frankenthal, fundadora e diretora da AVIVA18, é neta de Marcos Frankenthal z”l. Esta página integra o acervo de Legado da AVIVA18 como homenagem e registro histórico — um tributo ao homem e ao método que ele deixou: organização, responsabilidade pública e humanidade prática.
A AVIVA18 existe para transformar valores em prática: prevenção, educação, orientação, proteção de vítimas e responsabilidade institucional diante da discriminação.
Ele organizou uma comunidade em crise. Nós organizamos instituições para prevenir a crise — antes que ela vire rotina, antes que o dano vire destino.
O legado de Marcos Frankenthal conversa com isso por um motivo simples: ele provou, na vida real, que comunidade forte não é a que grita mais — é a que organiza melhor, acolhe com seriedade, age com método e sustenta o que constrói.
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